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Resenha Neurológica #05

Recém divulgado na NEJM os resultados do Estudo HOPE (Fase 2) lançam uma luz no futuro do tratamento da enxaqueca com imunobiológicos, no caso, um antagonista do Polipeptídio Ativador da Adenilato Ciclase Pituitária (PACAP), mas antes de vermos os resultados do HOPE, precisamos entender de quem estamos falando.

Os estudos em fisiopatologia da enxaqueca demonstraram nas últimas décadas o importante papel dos neuropeptídeos, seja o PACAP, seja o Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina (CGRP), sendo que este neuropeptídeo já apresenta antagonistas farmacológicos estudados e comercializados como nível 1A de evidência no tratamento da Enxaqueca, porém, também já sabemos que por volta de 60% dos pacientes atingem boa resposta de tratamento com tais medicações. Diante desse cenário, desde a década de 90 com a descoberta do PACAP estuda-se o seu papel na fisiopatologia da Enxaqueca.

Distribuição dos receptores PACAP e seu papel fisiológico [1]

O PACAP é produzido no éxon 4 do gene ADCYAP1 do cromossomo 18 e sua forma com 38 aminoácidos é a forma mais abundante no corpo humano (90% em média), principalmente no hipotálamo, sistema nervoso autônomo parassimpático, gânglios trigeminais cervicais superiores e em artérias cerebrais e meníngeas. E como o PACAP causa a dor de cabeça? Bem, diante do conhecimento da importância da via trigeminal na enxaqueca, do papel do sistema parassimpático e da vasodilatação cerebral, estudou-se voluntários saudáveis que fizeram infusões de PACAP38 endovenoso e tiveram vasodilatação cerebral (medida indiretamente por fluxo sanguíneo em artéria cerebral média) e quadro clínico de enxaqueca, a partir disso, estuda-se o papel de medicações que possam antagonizar o receptor e com isso, impactar diretamente na fisiopatologia da enxaqueca.

Papel dos receptores PACAP no vasosanguíneo cerebral [1]

Nesse contexto, o estudo HOPE, um estudo Fase 2, ou seja, estudo realizado em pacientes portadores de determinadas doenças (no caso, Enxaqueca), com o objetivo de estabelecer tanto a segurança a curto prazo quanto a dose-resposta e a eficácia do fármaco (no caso, um inibidor da sinalização do receptor PACAP), objetivou estudar a redução de > 50% do nº de dias/mês de crise de enxaqueca sem aumento de risco relacionado ao tratamento.

O estudo recrutou 233 pacientes de 18 a 65 anos de idade, que apresentavam diagnostico de enxaqueca antes dos cinquenta anos de idade, com frequencia maior do que oito dias de dores em 30dias de segmento e que tiveram falha de pelo menos 02 (duas) medicações profiláticas de enxaqueca nos últimos 10 (dez) anos. Dados os critérios de inclusão, os pacientes foram randomizados cegamente para 750mg EV, 100mg EV e placebo em infusão com SF 0.9% 100ml por 30 minutos.

O estudo mostrou que a infusão de 750mg reduziu estatisticamente o nº de dias de dor e a o nº de crises de dor quando comparado ao placebo (vide tabela abaixo), às custas do não aumento de efeitos adversos graves, sendo relatado apenas, aumento da infecção por COVID19 e por consequência nasofaringites, e apenas 11% da amostra criou resistência a medicação por desenvolver anticorpo contra a medicação.

Tabela de resultados do Estudo HOPE [2]

O estudo portanto foi positivo? Em alguns aspectos sim, pois traz mais informações sobre segurança do uso de possíveis novas medicações, contribui para o entendimento da fisiopatologia da enxaqueca, porém, foi um estudo com amostra pequena, segmento curto (4 semanas de triagem e 8 semanas de manejo), com amostra etnicamente não representativa (100% caucasianos), mas com certeza, podemos afirmar que estamos surfando na nova onda de tratamento e manejo da enxaqueca com imunobiológicos e redução importante de disfuncionalidade por enxaqueca.

Por Dr Renan Iegoroff – Médico CRM 214250 Pós-Graduado em Neurologia pelo IPEMED/AFYA SP
Bibliografia:

GUO, S et al. Role of PACAP in migraine: An alternative to CGRP?. Neurobiology of Disease Volume 176, January 2023, 105946. https://doi.org/10.1016/j.nbd.2022.105946.

ASHINA, M et al. A Monoclonal Antibody to PACAP for Migraine Prevention. N Engl J Med 2024;391:800-809. VOL. 391 NO. 9. Published September 4, 2024 DOI: 10.1056/NEJMoa2314577

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