ARTIGOS

Siga nas Redes Sociais

Escala “6×1” o impacto na saúde do sono

A jornada de trabalho “6×1” ganhou o debate público nessa última semana após a repercussão do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) elaborada pela Deputada Erika Hilton (PSOL/SP) após o movimento “Vida Além do Trabalho” idealizado e organizado pelo trabalhador Ricardo Azevedo. Caso você esteja agora pensando: “do que estamos falando?”; irei resumir brevemente a ideia central. O objetivo da PEC é reformular a orientação do inciso XIII do art. 7º da constituição federal no qual a jornada de trabalho terá duração não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana, facultada a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho (1). Essa mesma PEC prevê a manutenção do salário, citando os trabalhos de pesquisa da economista Marilane Teixeira, que mostram a previsão de impulsionamento da economia pela redução de desigualdade e aumento do consumo, logo, maiores contratações. Diante desse cenário, quero propor para vocês nas próximas linhas uma discussão além do texto da PEC, sob a otica da saúde do nosso sono diante de jornadas de trabalhos e o quanto a jornada “6×1” traz de prejuízos ao nosso sono.

Primeiro ponto a se destacar que quando falamos de jornada de trabalho e sono, a evolução do processo de trabalho e das relações trabalhistas foram sendo modificadas ao longo dos séculos. Se iniciarmos nosso estudo em tal tema no século XIX e início do século XX vamos ver uma preocupação muito maior com a fadiga física, uma vez que as ações de trabalho, era propriamente dita, físicas, logo, as preocupações estavam pautadas em desempenho e segurança. Avançando na linha do tempo da nossa história, a 2ª Guerra Mundial marca uma virada no entendimento das relações laborais e o foco começa a ficar mais claro para a fadiga mental, divisão de trabalhos em turnos e folgas, porém, apenas na década de 80 e 90 com a Globalização, aumento de concorrências, mudanças dos padrões de vida de forma global e crescente disparidades sociais, adota-se ações chamadas de “contramedidas” ou seja, ações na tentativa de mitigar o prejuízo que o trabalhador de turno apresenta em sua saúde sem prejudicar o lucro e produtividade. Chegamos então no século XXI com o avanço tecnológico, e principalmente, com a pandemia de COVID-19, as relações de trabalho sofreram profundas mudanças, a tecnologia muda objetivos de produtividade em escala; métrica de desempenho; pressões e home office, tudo acontecendo ao mesmo tempo que há um claro conflito geracional nas relações de trabalhos

Figura 1 – Linha do tempo das relações de trabalho

Como assim ? A força de trabalho que chega ao mercado, com domínio em tecnologia; formou-se muitas vezes em lares de pais ausentes pela jornada de trabalho, em famílias disfuncionais por sobrecarga emocional e sempre com um discurso de que o trabalho “danifica” o Homem. E assim, surge o “VAT” – Vida Além do Trabalho, uma ressignificação na relação de trabalho e sentido de vida, que questiona a estrutura ultrapassada de organização de trabalho, ao mesmo tempo que temos uma estrutura social que quer usufruir de todos os benefícios de ter uma cidade que funciona 24hs por dia, 7 dias por semana, então precisamos entender esse lado biológico da balança.

Reparem que coloco de uma lado da balança três conceitos: Sonolência, Fadiga e Alerta. Esses três aspectos da biologia do sono/vigília são fundamentais para entendermos o quanto o turno “6×1” pode impactar na saúde do sono. Têm-se por definição que “Fadiga” está relacionada a redução da capacidade mental ou física, por redução da perda de sono ou por vigília prolongada, e que tem piora subjetiva relacionado a manutenção do esforço; “Sonolência” por sua vez é o estado de tendência a adormecer por resultado da perda de sono ou pela vigilia prolongada, e que tende a melhorar, na realização de atividade física, devido ação do sistema nervoso autônomo; e por fim “Alerta” é a capacidade de direcionar e sustentar a atenção, e essa capacidade é diretamente proporcional ao sono e a manutenção do tempo de vigilia

Figura 2 – Aspectos biológicos x demandas sociais por trabalho

Então você deve estar pensando: Tá bom, sono e vigilia impactam, mas o trabalhador volta para casa todos os dias e ainda tem o dia de folga para compensar! A grande questão é que a fadiga mental depende sim da hora do dia, da duração total da vigilia, do sono anterior e da cronobiologia de cada individuo (preferencias fisiológicas pelo período de maior produtividade e alerta). Vamos exemplificar: um trabalhador, motorista que dirige oito horas por dia, ao término da jornada de trabalho ele está uma hora longe da sua base onde deve deixar o veículo, ao chegar na base, leva mais duas horas para se deslocar para o seu domicilio, chegando em casa, seus papeis sociais de marido, pai e filho são desempenhados por mais três horas; ele deita e dorme cinco horas, acorda para desempenhar novamente seus papeis sociais e leva mais duas horas para chegar novamente ao trabalho, no total do dia dele, sobraram úteis apenas duas horas/dia. Associe esse exemplo ao conhecimento de que nossa biologia foi feita para sentirmos sono a noite reduzirmos o estado de alerta, aumentando nossa recuperação de sono; e durante o dia mantermos nosso alerta com redução da pressão de sono e aumento da vigilia, logo, colocar horas a mais, seja de trabalho ou de condições externas que envolvam o trabalho, em momentos de maior sonolência, é naturalmente prejudicial ao nosso organismo. Perceba então que não existe cientificamente um tempo de turno maximo e um intervalo mínimo confiável para garantir recuperação de sono e redução de fadiga mental, o sono é uma conta que tem que ser paga à vista, não aceita parcelamento e muito menos investimento para reserva.

Figura 3 – Relação entre Sonolência, Fadiga e Alerta

Então, será que o caminho é a mudança da jornada de trabalho? Essa pergunta foi feita e testada pelo Projeto 4Day Week Brasil, organizado pela FGV com foco na redução de 80% da carga de trabalho com manutenção de 100% do salário e 100% da produtividade. 19 empresas participaram com 252 colaboradores e olhando para os resultados em saúde física, mental e sono, tivemos: 42,0% a mais de funcionários passaram a dormir mais de oito horas/noite; houve uma redução de 49,6% dos sintomas relacionados a insônia; redução de 72,8% de exaustão; redução de 30,5% de ansiedade; redução de 45,9% de desgaste ao final do dia. Tudo isso associado a aumento de 43,6% de prática de atividade física e 87,4% de energia para realização de atividades, e por fim com retenção ode 97,5% dos funcionários às empresas participantes.

Figura 4 – Resultados do projeto 4Day Week Brasil (3)

Sabemos que o convívio social e familiar, aliado a prática de atividade física, lazer e bem estar mental são “zeitgeber’s” (elementos que regulam o ritmo biológico, logo, o sono) e que a rotina “6×1” reduz drasticamente tais elementos, impactando diretamente na saúde de forma geral, e principalmente na saúde do trabalhador; e hoje, com novas tecnologia disponíveis para otimização de produtividade e novos pensamentos em relação a relações de trabalho, a procura por algo mais saudável, viável e sustentável deve ocorrer, sem tirar da balança que as pressões sociais pelas demandas de trabalho devem tambem ser ponderas, pois nenhuma mudança irá conseguir abarcar todas as modalidades de trabalho, e algumas classes irão sofrer impactos de aumento de pressão, um exemplo, a minha própria area de atuação, no qual o regime de plantao “12×36” continuará e a demanda por consultas ambulatoriais irá aumentar, uma vez que as pessoas terão mais tempo para focar em sua saúde, com isso, as operados de planos irão reduzir ainda mais tempo de consulta para “aumentar a demanda”, reduzindo qualidade de atendimento e do serviço ofertado, e será ainda mais frequente a frase que ouvi essa semana: “Dr, o Sr não vai tirar férias ou parar no final de ano né, eu preciso e tenho direito de que meu exame seja visto ainda esse ano”, disse o Sr X, que não passa no médico há dois anos, não trata sua diabetes pois acha que é mentira para vender remédio e continua fumando dois maços de cigarro por dia

Por Renan Iegoroff – Pós Graduado em Neurologia (IPEMED Afya/SP) e Medicina do Sono (AFIP Instituto do Sono/SP). CRM/SP 214250
Fontes:

Íntegra do Projeto de Emenda à Constituição, disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/leia-a-integra-do-projeto-que-propoe-o-fim-da-escala-6×1/

Gurubhagavatula I et al. Guiding principles for determining work shift duration and addressing the effects of work shift duration on performance, safety, and health: guidance from the American Academy of Sleep Medicine and the Sleep Research Society. Published Online:November 1, 2021 https://doi.org/10.5664/jcsm.9512

Relatorio de Resultado Final do Piloto da Semana de 4 dias no Brasil. 4day Week Brasil. Disponível em: https://www.4dayweekbrazil.com

Desvendando o Sono

Diga adeus à insônia e aprenda hábitos que irão garantir um sono reparador!

Você já se perguntou por que algumas pessoas conseguem dormir profundamente enquanto outras lutam contra a insônia? Neste eBook, o Dr. Renan Iegoroff, renomado neurologista e especialista em medicina do sono, revela os segredos para transformar suas noites e garantir um sono reparador.

Vamos cuidar do seu sono?

Agende uma conversa e melhore a sua saúde e seu bem-estar.