A Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) tem como passe fisiopatológica o fechamento intermitente e recorrente da via área superior durante o sono, contribuindo para efeitos sistêmicos e cardiovasculares, tendo como base de seu tratamento atualmente as pressões positivas (PAP’s) e a terapia de avanço oral com Aparelho Intraoral (AIO).
O acúmulo de gordura é um fato etiológico da AOS, e sua reversibilidade é importante e buscada nos tratamentos com evidência científica, porém, não dispomos de uma intervenção medicamentosa que tenha efeitos no peso, perda de adiposidade e efeitos na AOS, pressão arterial e inflamação sistêmica de baixo grau.
A Tirzepatida é um receptor do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) de ação prolongada e agonista do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) que se liga seletivamente e ativa os receptores GIP e GLP-1.

Diante desse cenário, os ensaios clínicos fase 3 (SURMOUNT-OSA) de 52 semanas, multicêntricos, paralelos, duplo-cegos, randomizados e controlados em 60 locais de 9 países tiveram como objetivo avaliar eficácia e segurança da medicação, em dois critérios de inclusão: participantes que não puderam ou não quiseram usar a terapia PAP (Grupo A) e participantes que usaram a terapia PAP por pelo menos 3 meses consecutivos no momento da triagem e que planejavam continuar a terapia PAP durante o estudo (Grupo B). Para ambos os grupos foram incluídos adultos > 18anos com diagnósticos de AOS moderada a grave (IAH≥15) com IMC ≥30kg/m² com história de pelo menos uma tentativa sem êxito de perda de peso. Importante destaque para o fato de ter sido critério de exclusão a presença de apneia central ou mista do sono, e grandes anomalias craniofaciais. Esses pacientes foram randomizados então para Tirzepatida vs Placebo, sendo a Tirzepatida utilizada por 52 semanas, com dose escalonada de 2,5mg a cada 4 semanas, devendo atingir 20mg na semana 20.
E quais foram os resultados do uso da medicação nos pacientes com AOS ?
No Grupo A, a redução no IAH foi de -25,3 eventos por hora (intervalo de confiança [IC] de 95%, -29,3 a -21,2) com Tirzepatida e -5,3 eventos por hora (IC de 95%, −9,4 a −1,1) com placebo, para uma diferença de tratamento estimada de −20,0 eventos por hora (IC 95%, −25,8 a −14,2), (P<0,001).
No Grupo B, a redução do IAH foi de -29,3 eventos por hora (IC 95%, -33,2 a -25,4) com Tirzepatida e -5,5 eventos por hora (IC 95%, -9,9 a – 1,2) com placebo, para uma diferença de tratamento estimada de -23,8 eventos por hora (IC 95%, -29,6 a -17,9), (P<0,001).

Para ambos os grupos, a medicação se mostrou segura, sem taxas elevadas de afeitos adversos graves, com maiores efeitos colaterais relatados sendo gastrointestinais (Náuseas, Vômitos e Diarreias).
O estudo é sem dúvida muito robusto quando olhamos a heterogeneidade da amostra e no critério rigoroso de seleção e randomização, os resultados jogam uma luz positiva ao tratamento combinado da AOS com foco na perda de peso para potencializar a redução do IAH, sabemos que a perda de peso de 7-11% é fundamental, e que a consistência de tal manutenção, importante para os desfechos cardiovasculares, e que atingir tal perda apenas com mudança de estilo de vida pode ser dificil. A prática futura desses estudos, o rebote de ganho de peso e manutenção dos achados após o ano de tratamento do trial estudado, ainda deixam uma incógnita, além de adaptarmos para a nossa realidade brasileira de alta prevalência de Diabetes Tipo 2 nos pacientes com AOS e o custo elevado com acesso restrito a medicação estudada, podem trazer dificuldades de transpor esses resultados na nossa prática clínica diária, mas há com certeza, novos horizontes chegando na AOS
Fonte: Atul Malhotra, M.D et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity, for the SURMOUNT-OSA Investigators. NEJM. June 21, 2024 DOI: 10.1056/NEJMoa2404881
Disponível em: NEJM
